segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Seres urbanos (ou "A vida na cidade")

Após quase duas semanas longe dos palcos, peço a voz e a vez de novo. O assunto, na verdade, é uma conversa que eu tive com o Brunão outro dia. Explicava uma coisa que eu sempre pensei, algo que eu nem falo muito porque muita gente nem tentaria entender.

A trilha sonora do post pode ser um City of Tiny Lights, do Zappa.

Quais são os seres que vivem bem na cidade, fora o homem?

Cães, gatos?
Não, eles não vivem bem. Eles sobrevivem de restos humanos, no caso dos gatos até consegue-se alguma caça, mas isto não justificaria o número em que eles são encontrados.

Os seres que vivem na cidade de verdade, sem depender de nossa bondade (intencional) são: pombas, ratos e baratas.

Eu não estou vendo a sua reação - isso é a metafísica do texto, ele está escrito muito antes de você ter a reação, mas conversa com você, como o Marlon Brando com o Super-homem - mas é bem provável que você tenha uma certa torcida de nariz, o conhecido "nojinho".

Porque são sujos, não é mesmo? É isso que as pessoas falam deles. "Ratos são imundos", "pombas trazem doenças", "baratas são nojentas".

Agora, vamos aprofundar a análise. Esses animais produzem sujeira própria? Sim, o tanto quanto qualquer espécie correspondente em porte. O rato, quase o mesmo tanto que um coelho, etc. Eles não são produtores de sujeira em si.

O que os diferencia dos demais é que conseguem viver nas cidades. E é isso que gera o desgosto. Olhamos para estes animais e a coisa mais ultrajante que nos passa na cabeça é que eles conseguem sobreviver à nossa sujeira. Isso para a maioria é nojento.

Estes três, em vez de minguarem com a nossa presença, se adaptaram.

Agora vamos falar de limpeza. Na próxima vez que você vir uma pomba ou barata, ou pensar em um rato (ele geralmente é muito esperto para que você o veja, mas ele está lá também), você pode fazer um exercício. Olhe para tudo que você vê de sujo nele e pense no quanto daquilo saiu da sua casa. E de você. Se pergunte se aquele seria considerado sujo se você, nobre cidadão bípede e asséptico, não produzisse nada de lixo nessa cidade.

Impossível, você diz? Bom, então não é meio absurdo que tenhamos uma política de "controle de pragas" mas não tenhamos uma saída inteligente para o nosso próprio lixo?

Desculpe se eu revirei o lixo na sua cabeça. O cheiro vai demorar pra baixar agora. Bom, pelo menos os ratos, as pombas e as baratas já estão acostumados.

3 comentários:

Bruno disse...

Quero ver o que esse monte de animais vai fazer se essas doenças matarem todo mundo! Já devem estar pensando num jeito sustentável de produzir lixo sem prejudicar os seres humanos! ;)

Renato Zechetto disse...

você foi a primeira pessoa que conheço que parou pra pensar na inocência destes animais em relação a sujeira que 'administram'. Da próxima vez que tiver algo que pensa, e, achar que ninguém vai tentar entender, pode contar comigo e alguns outros amigos - sei que tem uns, com a mente meio que 'confusa' aos olhos 'mortais'.

Virgínia disse...

Adoro esses textos que fazem a gente ver as coisas sob outro ponto de vista. Não tinha parado pra pensar que ratos e baratas são nojentinhos porque vivem nos esgotos que nós criamos. A nossa tendência é mesmo SÓ afastar tudo o que é repelente: "não me interessa pra onde o esgoto e o lixo vão desde que nao fiquem na minha casa", "mato ratos e baratas porque não quero nenhum deles na minha casa e pronto, minha vida está ótima"