segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Novos amigos imaginários


Ok, depois de um belo tempo, vambora.

Pretendo fazer um curto hoje. Baseado na frase que o Júnior, bluesman e sábio amigo meu, me contou hoje. Ele viu num filme, que era uma merda, e a frase passa despercebida no meio da película.

"Deus é o amigo imaginário dos adultos."

Minha opinião: muito foda essa.
Porque a conceituação de Deus passa justamente por isso. Uma construção individual de cada pessoa, um confidente, um espectador. Um motivo para nunca estar sozinho.

Eu acredito que o ser humano, mais do que pavor de ficar sozinho, tem uma dependência fortíssima de ter uma platéia. Esse, aliás, é o tema deste blog. É uma convicção inabalável que tenho: as pessoas dependem de saber que sua vida é uma história que está sendo contada, e que valerá a pena ser ouvida. Seja uma comédia, um drama, aventura, pornozão ou thriller, sempre é uma história (ou estória, como era antes, com mais fantasia e menos compromisso com a veracidade). O pior não é viver uma vida ruim, é viver uma vida não contada. Daí cê me diz, "nem todo mundo quer contar pra alguém." O ponto é esse: na grande maioria das vezes a pessoa conta para si mesma. As pessoas sempre tentam imaginar as melhores cenas que viveram em terceira pessoa. Pode reparar, sempre que você imagina um momento de glória seu, imagina em terceira pessoa. Ao contrário dos de vergonha. Estes você imagina em primeira pessoa, com todas as pessoas te olhando, aquele superego com o olhar de reprovação fixo em você.

Só que a gente é moderno; se você está lendo um blog, ou seja, é uma pessoa mais nova e curte o lance de ser "racional", "adão o caralho, foi um big bang", provavelmente tem toda essa vibe de alguém te ver mas não acredita em Deus. Quando eu era adolescente o lance era falar um "eu acredito em Deus, mas não Deus como todo mundo acredita, é um Deus meu, uma energia, blablabla" (imagine-me falando isso com voz imitando uma menina fútil). Tanto faz, dá na mesma. A função na sua mente é a mesma, ser uma pessoa que está lá para te ver como um personagem principal. Que se relaciona primeiramente com você (alguém se imagina como o coadjuvante de uma história? se sim, me avisa, ou a seu terapeuta). O resto do mundo é um assunto. Um amigo imaginário.

Com a chegada da Internet as coisas só ficam mais claras se você concorda com meu ponto de vista. A graça de ter um blog é ter mais e mais leitores. Porque aí o seu público fica anônimo, perde uma cara e passa a ser mais como Deus: indefinível. Quando tem poucos leitores - como eu - não está escrevendo para o mundo, está contando uma história de uma só vez para todos os que te conhecem.

Taí. Deus é o amigo imaginário dos adultos, e o blog é quase o mesmo. Só que a "oniciência" deste depende da sua popularidade.


p.s.: Achei a frase tão boa que o porra do roteirista podia ter feito só a frase e mandado para algum jornal, em vez de fazer um filme merda.

13 comentários:

agente laranja disse...

Haha, a questão do coadjuvante eu já discuti no meu palquinho :P

Brunão disse...

"Na trincheira do dia-a-dia, não há lugar para o ateísmo. Não existe algo como “não venerar”. Todo mundo venera. A única opção que temos é decidir o que venerar. E o motivo para escolhermos algum tipo de Deus ou ente espiritual para venerar – seja Jesus Cristo, Alá ou Jeová, ou algum conjunto inviolável de princípios éticos – é que todo outro objeto de veneração te engolirá vivo. Quem venerar o dinheiro e extrair dos bens materiais o sentido de sua vida nunca achará que tem o suficiente. Aquele que venerar seu próprio corpo e beleza, e o fato de ser sexy, sempre se sentirá feio – e quando o tempo e a idade começarem a se manifestar, morrerá um milhão de mortes antes de ser efetivamente enterrado."

David Foster Wallace
daqui:
http://www.revistapiaui.com.br/edicao_25/artigo_766/A_liberdade_de_ver_os_outros.aspx

Ber disse...

Gostei do post. Mas tem um filosofo francês X que fala dessa espiritualidade sem deus. Eu gosto dessa idéia. Deus não existe, mas isso não anula a experiencia do ritual. Ou, se você preferir, pode ver deus como uma substancia primordial em tudo, inclusive você. Sem a idéia de consciencia, do Big brother celestial.

( Ah, e se o cara escreveu um filme tão ruim é porque deve ter chupinhado a frase de alguem genial )

Ber

Ber disse...

Gostei do post. Mas tem um filosofo francês X que fala dessa espiritualidade sem deus. Eu gosto dessa idéia. Deus não existe, mas isso não anula a experiencia do ritual. Ou, se você preferir, pode ver deus como uma substancia primordial em tudo, inclusive você. Sem a idéia de consciencia, do Big brother celestial.

( Ah, e se o cara escreveu um filme tão ruim é porque deve ter chupinhado a frase de alguem genial )

Ber

Bernardo disse...

Gostei do post. Mas tem um filosofo francês X que fala dessa espiritualidade sem deus. Eu gosto dessa idéia. Deus não existe, mas isso não anula a experiencia do ritual. Ou, se você preferir, pode ver deus como uma substancia primordial em tudo, inclusive você. Sem a idéia de consciencia, do Big brother celestial.

( Ah, e se o cara escreveu um filme tão ruim é porque deve ter chupinhado a frase de alguem genial )

Ber

S. disse...

Todo mundo e protagonista

Fabio Ciccone disse...

Mandou bem, Marussa. Muito bem escrito, gostoso de ler e com aquele toque de "putamerda, é isso mesmo" inerente a bons textos. Você dá pra um bom cronista.

Anônimo disse...

Adorei o texto. Além de bem escrito, me deu uma idéia ótima: nos meus momentos de vergonha, vou imaginar tudo acontecendo com outra pessoa, e eu serei o coadjuvante. Nos meus dias ruins, serei o coadjuvante que franze a testa. Nos bons, darei a mão.
Bjs, Jass.

Jab Vortex disse...

Não exatamente comentando o post:

O Zen se baseia na experiência religiosa sem um Deus, deuses ou "lideres superhumanos". na verdade alguns mestres zen foram execrados pelo Budismo por dizer que muitos que diziam ter alcançado status de Bodisatva eram meros escravos de uma ilusão mais bonita e nada mais.

mas estou apenas começando mues primeiros passo no zen. Teremos muitas conversas sobre o fim de amigos imaginários.

Todos eles!

stephanie disse...

não acreditar em Deus é também ter um deus.

BUENO, FERNANDO (FIGUEIREDO) disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
V. H. disse...

Show de bola hein mestre!

Virgínia disse...

Não tenho uma posição religiosa definida mas vejo que a religião tem sua importância para as pessoas, "explica" de onde viemos e pra onde vamos, dá conforto para a morte, dita seu código de valores morais para a convivência em sociedade, dá um propósito pra a vida e traz essa sensação que você diz de que "nunca estamos sozinhos". Mas para muita gente essas respostas/regras não são suficientes e a gente sai procurando nosso deus por aí. O google mesmo poderia ser um, dá resposta para todas as suas dúvidas hehehehe