terça-feira, 31 de março de 2009

Eu agradeço a todos os Santos

A Jorge Ben por mostrar a poesia da vida.
A Gil por ser amigo íntimo das palavras
E a Guimarães por libertá-las.

Eu agradeço a Cartola por colocar o mundo na caixa de fósforo,
A Chico por ser seu confidente
E a Clarice por ela ser tão mulher.

A Simão, Pedro, Paulo, Judas, Tiagos, Mateus, João, André, Tadeu, Felipe e Bartolomeu por serem os primeiros a acreditar no amigo.

Por ser maior que as regras da vida, a Silvio.
Por resistir a cada golpe do pessimismo, a Ali.
Por carregar o mundo nas costas, ao homem da carroça.

Agradeço de todo o coração ao cachorro na estrada no Chile
Ao chinês que parou a máquina
E também a quem não perdeu a ternura.

Eu agradeço ao primeiro louco e ao último são.
Eu agradeço aos piscianos por serem puros
E agradeço aos puros por não dependerem de religião.

A Luiz Inacio por ter tido a coragem.
A Christopher por ter voado de verdade,
E ao Dalai, por ser.

Eu agradeço ao pai pela gentileza e pela força
E à mãe pela decisão e pelo sacrificar.

Agradeço aos que leem, aos que ouvem e aos que querem comentar.
E agradeço quem se aproxima , pelo tempo que for, e faz parte da minha vida.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

O vazio entre dois livros


Como faz tempo que não escrevo por aqui, vou soltar as palavras devagar. Pra não me atropelar, não afobar. Escrever é que nem colocar meia quando a gente é criança: com pressa, enrola tudo e temos de começar de novo.

Bom, para começar, vou citar os dois livros que fizeram companhia para mim neste meio tempo que fiquei sem subir ao palco. Foram eles os ilustres “Grande Sertão: Veredas” e “Tao Te Ching”. Escritos por João Guimarães Rosa e Lao Tse, respectivamente. Duas obras primas. Dois livros e muito mais que mil vidas de sabedoria.

Eles falam, cada qual à sua maneira, do que é a vida quando você abre o foco. Quando a gente olha uma coisa de perto não vê o todo. Tem até aquela teoria que a gente não vê os rostos por completo. A gente vê todos os detalhes e depois monta dentro da cabeça o rosto da pessoa. Só que normalmente ninguém consegue fazer isso com a vida, com o mundo. Nos apegamos aos detalhes, o que foi uma semana, o que foi um dia, o que é um evento. É difícil olhar para tudo que nos acontece e ver mecanismos genéricos que se repetem ao longo de nossa vida. No máximo um “sempre me fodo quando namoro mulheres mais novas” ou “nunca consigo me dar bem em empregos formais demais”.

O Tao é uma religião. E mais. E não só. Este é um livro para se ler com tempo. Sem necessidade de entender cada página de prima. Pelo contrário, eu gosto de tomar bem 40 minutos para ler cada página. Você percebe que os conceitos que estão no Tao são reproduzidos em vários livros, incluindo a própria bíblia. Mas se cada livro é um tipo diferente de pão, como croissant, francês ou italiano, o Tao é a própria massa. Não tem o sabor ou a forma definidos. Só a substância. É algo difícil de explicar como deve ser difícil para você que lê agora entender. Mas um exemplo gostoso:

Una oito raios a um eixo e você terá uma roda.
A utilidade da roda está no vazio.
Monte com o barro uma panela.
A utilidade da panela está no vazio.
Assim, da existência nasce o valor.
Da não-existência, o vazio, nasce a utilidade.


Por isso aconselho você a tentar por si mesmo. Leia uma página qualquer do meio e veja como ele fala de um aspecto da vida sem ser específico demais. No fim das contas, você percebe que ele fala de sua vida, e nenhuma outra, ou todas as outras.

Lendo o Sertão, descobri muitos pedaços do Tao. Porque o Tao está presente em quase todas as histórias por um ponto de vista, e no Sertão ele explica muita coisa. O Sertão é sobre como os conceitos de bem e mal são só a primeira milha andada na viagem de auto-descobrimento. Exemplo: todos são bons e maus. Mas, não sendo ninguém 100% bom, então somos todos maus. Mas se todos somos maus, ninguém é mau, porque você só é algo quando existe um exemplo oposto. Então o que somos é o próprio Sertão, onde não existe o bom e o mau. E o Sertão, infinito, está dentro de nós. E por isso nossa busca na vida nunca termina. Fora isso, o livro é importantíssimo para você entender o que é a língua. João, o autor, falava 14 línguas. Escreveu um livro que todo mundo que fez cursinho conhece pela “complicação”. Mas o livro, eu entendi, revela os mecanismos da linguagem. Leia, mesmo sem entendê-lo a princípio. Você perceberá que usamos a nossa língua de uma maneira muito, muito limitada. Quase não a usamos na verdade. É um livro que me delicia ler. Descobrir os absurdos de sentidos possíveis com as palavras – e suas deturpações intencionais. Tem muito a ver com um dos meus posts anteriores (procura por aí no blog porque eu não manjo muito de ficar fazendo link) quando eu falava sobre ler català.

Foi por essas andanças, mundos sem fim de ideias e palavras, que me perdi. Nesses tempos. Não peço desculpas, estou é grato, encontrei mais de mim. E sei que as palavras podem ser vazias, essa é sua utilidade, então adorarei discutir-explicar melhor ao vivo.

Agora estou de volta, para varrer o chão dando a conta desta casa.
E, como sempre, as visitas são mais que bem-vindas.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Infiltrado na Orquestra

Studio Sp recebeu visita da Orquestra Imperial. Fui nos dois dias, sem ingresso mesmo, esperei para começar o show e entrei. Sexta e sábado.

Valeu demais.

http://br.youtube.com/watch?v=U1yXDoRWXdQ

Repara na Nina Becker e na Talma de Freitas quebrando tudo.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Novos amigos imaginários


Ok, depois de um belo tempo, vambora.

Pretendo fazer um curto hoje. Baseado na frase que o Júnior, bluesman e sábio amigo meu, me contou hoje. Ele viu num filme, que era uma merda, e a frase passa despercebida no meio da película.

"Deus é o amigo imaginário dos adultos."

Minha opinião: muito foda essa.
Porque a conceituação de Deus passa justamente por isso. Uma construção individual de cada pessoa, um confidente, um espectador. Um motivo para nunca estar sozinho.

Eu acredito que o ser humano, mais do que pavor de ficar sozinho, tem uma dependência fortíssima de ter uma platéia. Esse, aliás, é o tema deste blog. É uma convicção inabalável que tenho: as pessoas dependem de saber que sua vida é uma história que está sendo contada, e que valerá a pena ser ouvida. Seja uma comédia, um drama, aventura, pornozão ou thriller, sempre é uma história (ou estória, como era antes, com mais fantasia e menos compromisso com a veracidade). O pior não é viver uma vida ruim, é viver uma vida não contada. Daí cê me diz, "nem todo mundo quer contar pra alguém." O ponto é esse: na grande maioria das vezes a pessoa conta para si mesma. As pessoas sempre tentam imaginar as melhores cenas que viveram em terceira pessoa. Pode reparar, sempre que você imagina um momento de glória seu, imagina em terceira pessoa. Ao contrário dos de vergonha. Estes você imagina em primeira pessoa, com todas as pessoas te olhando, aquele superego com o olhar de reprovação fixo em você.

Só que a gente é moderno; se você está lendo um blog, ou seja, é uma pessoa mais nova e curte o lance de ser "racional", "adão o caralho, foi um big bang", provavelmente tem toda essa vibe de alguém te ver mas não acredita em Deus. Quando eu era adolescente o lance era falar um "eu acredito em Deus, mas não Deus como todo mundo acredita, é um Deus meu, uma energia, blablabla" (imagine-me falando isso com voz imitando uma menina fútil). Tanto faz, dá na mesma. A função na sua mente é a mesma, ser uma pessoa que está lá para te ver como um personagem principal. Que se relaciona primeiramente com você (alguém se imagina como o coadjuvante de uma história? se sim, me avisa, ou a seu terapeuta). O resto do mundo é um assunto. Um amigo imaginário.

Com a chegada da Internet as coisas só ficam mais claras se você concorda com meu ponto de vista. A graça de ter um blog é ter mais e mais leitores. Porque aí o seu público fica anônimo, perde uma cara e passa a ser mais como Deus: indefinível. Quando tem poucos leitores - como eu - não está escrevendo para o mundo, está contando uma história de uma só vez para todos os que te conhecem.

Taí. Deus é o amigo imaginário dos adultos, e o blog é quase o mesmo. Só que a "oniciência" deste depende da sua popularidade.


p.s.: Achei a frase tão boa que o porra do roteirista podia ter feito só a frase e mandado para algum jornal, em vez de fazer um filme merda.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

O sonho de mil gatos - parte 1: uma despedida


Tive de novo um sonho com gatos.
Eu já tive mais de 100 gatos na vida. De uma vez só, 32.

Sim, sei o nome de quase todos. Se visse qualquer um deles na minha frente agora, te diria o nome sem pensar duas vezes.

Eu fui criado com os gatos e isso, definitivamente, determinou o jeito como lido com as pessoas. Até o modo como faço carinho nas pessoas é como faço carinho em gatos.

O meu humor, as minhas patadas, a vontade de me isolar às vezes, o grude em outras.

E teve um que era muito do bem. Eu amava de verdade, percebo mais claramente hoje. O Ferdinando.
A mãe dele teve os filhotes (sempre 5 por vez, é algum tipo de metáfora dos gatos: sempre nascem 5) no quintal do vizinho e resolveu trazer pra casa. Pegava com a boca no cangotinho de cada um e vinha trazendo.

1, 2, 3, 4. Nisso o tempo fechou daquele jeito que acontece nas chuvas mais fortes.

Começou uma tempestade. Bíblica. Ela acaba que deixa um no meio do caminho. A gente percebeu, correu lá no quintal.

Tá lá o gato, com o nariz da cor do pêlo (branco).
Gelado. De verdade, gelado, mais que qualquer morto.

Pega o gato. Põe pano com água quente em volta. Tudo com aquele Pai Nosso silencioso que sempre embala a mente nessas situações. Esquenta, esquenta e, de repente, o que eu esperava: volta à vida.
"Esse aqui, que voltou da morte, vai chamar Ferdinando".

O Ferdi não miava. É engraçado, Deus gosta dessas figuras de linguagem. O Ferdi não miava, não ficaa bravo, nem muito contente. O gato voltou à vida, mas o coração sempre permaneceu com aquele gelado.

Ele cresceu, sossegado como só ele. Ao contrário dos outros machos, não ficava dias fora e voltava alquebrado como se vindo de um samba sem fim. O Ferdi gostava de estar lá em casa, não fazia questão dessas emoções.


Todo gato um dia se vai. Para a vida ou para algo depois disso.
E um dia o Ferdi foi. Não vi mais, mas eu sabia que não ía mais voltar.

E hoje sonhei com ele. O encontrei e a cara dele era aquela que nunca saiu da minha memória.
Só que... eu não sabia o nome dele. Olhei, conversei como quem encontra algum rosto conhecido e não liga o nome.

Acordei hoje, fiz mil coisas. De repente tô aqui no serviço, ligo o iTunes. Algo no fundo da cabeça me fala "Cartola".
Vou ouvindo e começa essa música.
E minha boca fala na hora a palavra que me faltava durante todo o dia: Ferdinando.

Deixe-me ir preciso andar,
Vou por aí a procurar,
Sorrir pra não chorar
Deixe-me ir preciso andar,
Vou por aí a procurar,
Sorrir pra não chorar

Quero assistir ao sol nascer,
Ver as águas dos rios correr,
Ouvir os pássaros cantar,
Eu quero nascer, quero viver

Deixe-me ir preciso andar,
Vou por aí a procurar,
Sorrir pra não chorar
Se alguém por mim perguntar,
Diga que eu só vou voltar
Depois que me encontrar

http://www.youtube.com/watch?v=WQZF0vjjNhc

Esta é a música que me vinha na cabeça quando imaginava o dia em que ele foi embora. E não só dele, essa é a música que para mim representa a despedida de todo gato.

Porque todo gato um dia se vai.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Dedos, o horóscopo


Eu outro dia entrei numa viagem de dois segundos: um horóscopo (ou classificação psicológica, dá no mesmo) em que as pessoas fossem classificadas segundo os dedos da mão. É um pouco mais complicado porque você restringe a pessoas a 5 tipos, em vez dos tradicionais 12. Mas tem o seu charme. Quer ver? Vamos lá:

Polegar: você é definitivamente uma pessoa positiva, e geralmente oposta a todos os demais. Os outros fazem o volume, mas você é aquela minoria fundamental pra qualquer projeto ter uma boa "pegada". Problema, você também é levemente menos articulado que os outros.

Indicador: se acha o mais útil porque sempre assume a liderança. Claro, você é a primeira escolha quando um serviço precisa ser feito. Seu problema é o perfil acusatório. Ao mesmo tempo em que é bom para apontar caminhos, também é dado a acusar.

Pai-de-todos: em algum tempo pode ter tido outro papel, mas hoje seu lance mesmo é falar aquilo que os outros não podem, aquele sonoro "Aqui pra você, ó!". Você é a válvula que libera os sentimentos negativos. Curiosamente, é também o que tem o maior alcance de todos. Ah, detalhe importante: vida sexual intensa e 'profunda'.

Anular: você é o outsider. Misterioso, as pessoas não sabem qual é a sua geralmente. Mas o fato é que se tem alguém que tem a ver com um compromisso é você. O mais ligado a relacionamentos, parece até que foram feitos para você.

Mindinho: o menorzinho, subestimado e querido. Carismático que só, é fundamental quando o assunto é ajudar pessoas a fazerem as pazes. O que o chateia é que a maioria das pessoas não o levam a sério.

É engraçado esse lance de estereótipos. Há uma chance de você se identificar com um deles, nem que seja só em determinados momentos de seu dia.
Depois vou fazer horóscopos de outras coisas mais inteligentes, prometo.
Agora me diz: qual dedo é você?

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

O carnaval e o acaso dentro de mim.


Estava conversando hoje sobre "filhos planejados" com a Bia. Comçamos a falar sobre o conceito, e sobre o que as pessoas dizem dele.

Já reparou que as pessoas falam esse tipo de coisa, "meu irmão não foi planejado", "eu fui planejado pelos meus pais", etc.?

Se fosse só o falar, sem nenhum julgamento, não teria problema. O foda é que percebi que o "planejado" tem conotação positiva, e o "acidental" é negativo. São os filhos de "camisinha furada", de "pílula de farinha", do carnaval e até da Copa.

Daí, só hoje me dei conta de uma coisa: eu sou um não-planejado e adoro isso. Não só porque eu sou um, fui descobrir mais tarde isso. Mas eu sempre achei que filho de verdade é o que vem não por plano, mas porque sim. É ter seu momento único, independente de como ía a vida dos pais.

Imagina isso: você é um plano dos seus pais. Primeiro eles planejaram a casa, depois escolheram um carro, depois encomendaram você. How dumby. Meu, como você vai ter qualquer perspectiva se nem começou fazendo sua sorte, é só um plano? Você achou que tinha uma vida quando nasceu, mas está só seguindo um papel. Sim, eles poderiam escolher que você não valia a pena, podiam escolher mudar de carro, mas mediram prós e contras e te fizeram. Nossa, isso sim seria um trauma para mim.

Bom, como bom escorpiano, sou filho do carnaval. Não tem escorpiano que não tenha essa vibe de ser algo fora dos planos. Elemento imprevisível, não regrinha cagada. Escorpiano nasce do momento do ano que mais lembra o sexo, a festa, o coração acelerado. Eu fico fazendo esse cálculo às vezes, vendo se o signo tem a ver com o momento do ano que aconece 9 meses antes.

Meu irmão, por exemplo. Meu glorioso irmão. Ele é filho da Copa de 70. Que do caralho isso! O Brasil vive o momento mais glorioso de sua história até então, se consagra não ao vivo mas a cores a maior nação do futebol e, desse momento, dessa catarse, dessa festa, o resumo é uma pessoa. Não tinha como não ser do bem, não tinha como não ser um cara excepcional, que se destaca na multidão.

Tem mais. Vale lembrar que eu acredito em alma. A gente pode encomendar um monte de coisas, mas nunca achei que encomendar uma alma pra chegar num corpo fosse algo minimamente condizente com todo o lance espiritual. Um corpo é o resultado da soma de genes de duas pessoas, mas a alma é única, não uma mistura de dois. É algo maior, que vem de Deus (ou qualquer nome que você queira dar, se é que acredita nisso; eu não sou nem um pouco grilado com ateus e afins, me grilo mais com quem acha que sua visão é a única válida), e que eu saiba o cara até atende pedidos, mas não com hora marcada.

Um filho planejado não tem essa mistura de caos em sua essência, essa entropia. Não tem a imprevisibilidade que é a matéria-prima de pessoas como Einsten, Pelé ou Ali. É uma receita de bolo que está crescendo bem, obrigado, tudo dentro dos planos. Estará pronto às cinco, se você quiser um pedaço.

O resumo é: você não precisa ser um filho do acaso para ser especial. Mas nunca se sinta superior por ser planejado. E nunca, e agora eu digo nunca mesmo, considere alguém inferior por ser acidental.


O acaso é o que muda o mundo. A norma é o que o torna o mesmo de sempre.