Depois que comecei com o wolvie.tumblr e com o Buzz, parei completamente de postar por aqui.
Por diversos motivos, não só essas duas novidades.
Um deles é que não tenho tido as grandes conversas que motivam os textos que eu colocava aqui. Tenho encontrado pouco (na verdade, quase nunca) o Brunão e outros sujeitos que são sinônimos de reflexões e pensamentos que ascendem e vão embora. Tem uma coisa que tenho certo orgulho que é ter montado um círculo de amizades de pessoas que têm muita 'food for thought'. Alguns desses já são considerados meio 'desparafusados' pela maioria das pessoas, mas daí vem a beleza e poesia: lentes com pequenas falhas sempre geram efeitos únicos nas imagens. Eu realmente amo conviver com essas pessoas, elas me fazem pensar que depender de um firmamento é pra quem Deus não quer que tenha asas.
Outro motivo: aprendi um pouco de falar menos do que penso (é bom e ruim conviver com pessoas que agem assim, mas eu agradeço a elas). Sim, isso é bem engraçado para mim. Eu que sempre coloco tudo o que me passa pela cabeça - passando por pedágios da alma e do coração - neste blog. Aprendi que posso fazer como um Haikai: falo um tico de nada, subjetivo como a própria vida. Andei fazendo muito disso recentemente. Antes eu deixava uma pista clara de tudo que eu pensava, para só quem não devesse ver não entender o todo. Porque eu gosto de um palco, gosto de encenar minhas histórias. E, mesmo assim, muita gente não via. Agora eu coloco quase um nada de tudo. Mas aposto que, por me conhecer, muita gente vê demais (ou seja, mais do que eu queria). Anyway, cada ferramenta a seu propósito. O blog para falar mais do que eu devia. Os demais para falar menos do que eu quero.
Sendo bem sincero, fico com um medo da minha vida ficar só nesses espirros de verdade que twits, buzzes e tumbles me permitem. Eu não sou uma onomatopéia, sou uma ironia. É legal brincar de ser outras figuras de linguagem. Mas nunca deixe de saber como você se conjuga na essência.
Por outro lado, e um lado que eu não queria pensar muito sobre, é que eu tenho percorrido menos os labirintos que me levavam até os padrões que revelam meus insights. Eu estava chegando em pontos em que eu poderia ficar também com um 'defeito na lente'. É legal isso com os outros, mas eu andei beirando ficar 'one card shorter of a full deck', como diria o Freddie. Tava na fila desse bar, mas resolvi não entrar agora. Prefiro pensar que isso pode acontecer em algum momento outro da minha vida. O que eu posso garantir é que eu morro antes de virar um tiozão de pullover por cima da camisa, são e pleno de si mesmo.
O mais importante desse texto, é: eu precisava soltar a mão. Escrever pra ninguém. Nem sei se vou divulgar esse post nas mídias que citei acima, como costumo fazer sempre. Não me importa agora que leiam, mesmo. Comecei a escrever como muitas vezes faço - sem fazer a mínima ideia do que viria pela frente. Mas, logo de cara, senti que os dedos estavam batendo as teclas naquele ritmo que me prenuncia 'lá vem um post'.
Uma coisa no entanto permanece além de tudo: não faço ideia do que vem pela frente, mas vou seguir o Tao. Vou ver onde vai dar.
Nos vemos no caminho, me chame se eu estiver distraído.
Mostrando postagens com marcador Tao. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Tao. Mostrar todas as postagens
quinta-feira, 6 de maio de 2010
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
O vazio entre dois livros

Como faz tempo que não escrevo por aqui, vou soltar as palavras devagar. Pra não me atropelar, não afobar. Escrever é que nem colocar meia quando a gente é criança: com pressa, enrola tudo e temos de começar de novo.
Bom, para começar, vou citar os dois livros que fizeram companhia para mim neste meio tempo que fiquei sem subir ao palco. Foram eles os ilustres “Grande Sertão: Veredas” e “Tao Te Ching”. Escritos por João Guimarães Rosa e Lao Tse, respectivamente. Duas obras primas. Dois livros e muito mais que mil vidas de sabedoria.
Eles falam, cada qual à sua maneira, do que é a vida quando você abre o foco. Quando a gente olha uma coisa de perto não vê o todo. Tem até aquela teoria que a gente não vê os rostos por completo. A gente vê todos os detalhes e depois monta dentro da cabeça o rosto da pessoa. Só que normalmente ninguém consegue fazer isso com a vida, com o mundo. Nos apegamos aos detalhes, o que foi uma semana, o que foi um dia, o que é um evento. É difícil olhar para tudo que nos acontece e ver mecanismos genéricos que se repetem ao longo de nossa vida. No máximo um “sempre me fodo quando namoro mulheres mais novas” ou “nunca consigo me dar bem em empregos formais demais”.
O Tao é uma religião. E mais. E não só. Este é um livro para se ler com tempo. Sem necessidade de entender cada página de prima. Pelo contrário, eu gosto de tomar bem 40 minutos para ler cada página. Você percebe que os conceitos que estão no Tao são reproduzidos em vários livros, incluindo a própria bíblia. Mas se cada livro é um tipo diferente de pão, como croissant, francês ou italiano, o Tao é a própria massa. Não tem o sabor ou a forma definidos. Só a substância. É algo difícil de explicar como deve ser difícil para você que lê agora entender. Mas um exemplo gostoso:
Una oito raios a um eixo e você terá uma roda.
A utilidade da roda está no vazio.
Monte com o barro uma panela.
A utilidade da panela está no vazio.
Assim, da existência nasce o valor.
Da não-existência, o vazio, nasce a utilidade.
Por isso aconselho você a tentar por si mesmo. Leia uma página qualquer do meio e veja como ele fala de um aspecto da vida sem ser específico demais. No fim das contas, você percebe que ele fala de sua vida, e nenhuma outra, ou todas as outras.
Lendo o Sertão, descobri muitos pedaços do Tao. Porque o Tao está presente em quase todas as histórias por um ponto de vista, e no Sertão ele explica muita coisa. O Sertão é sobre como os conceitos de bem e mal são só a primeira milha andada na viagem de auto-descobrimento. Exemplo: todos são bons e maus. Mas, não sendo ninguém 100% bom, então somos todos maus. Mas se todos somos maus, ninguém é mau, porque você só é algo quando existe um exemplo oposto. Então o que somos é o próprio Sertão, onde não existe o bom e o mau. E o Sertão, infinito, está dentro de nós. E por isso nossa busca na vida nunca termina. Fora isso, o livro é importantíssimo para você entender o que é a língua. João, o autor, falava 14 línguas. Escreveu um livro que todo mundo que fez cursinho conhece pela “complicação”. Mas o livro, eu entendi, revela os mecanismos da linguagem. Leia, mesmo sem entendê-lo a princípio. Você perceberá que usamos a nossa língua de uma maneira muito, muito limitada. Quase não a usamos na verdade. É um livro que me delicia ler. Descobrir os absurdos de sentidos possíveis com as palavras – e suas deturpações intencionais. Tem muito a ver com um dos meus posts anteriores (procura por aí no blog porque eu não manjo muito de ficar fazendo link) quando eu falava sobre ler català.
Foi por essas andanças, mundos sem fim de ideias e palavras, que me perdi. Nesses tempos. Não peço desculpas, estou é grato, encontrei mais de mim. E sei que as palavras podem ser vazias, essa é sua utilidade, então adorarei discutir-explicar melhor ao vivo.
Agora estou de volta, para varrer o chão dando a conta desta casa.
E, como sempre, as visitas são mais que bem-vindas.
Assinar:
Postagens (Atom)
