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quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Despedida em uma noite de luar

E então, quando a noite avançou, o paciente deu um suspiro e disse para a bela mulher a seu lado:
- Doutora, eu vou falar uma coisa muito importante. Você é muito bonita. E, me desculpe, você é ainda mais sexy. Eu adoraria ter conhecido você em outra ocasião, em outra situação. Eu queria ter tido você - só que de outra maneira. Eu sei que você me acha louco pelo que eu tentei te convencer hoje. Mas, infelizmente, eu não sou um louco. Infelizmente - muito, muito infelizmente - tudo que eu te contei era verdade. E essa é a última vez que nós - do jeito como estou agora - nos falamos. De um jeito ou de outro. Porque você pode acreditar em tudo que eu disse e sair agora. E ir o mais longe que você conseguir. E se salvar, porque eu vou, depois que acontecer, desaparecer daqui e nunca mais voltar. Ou você pode não acreditar em nada, e ficar aqui comigo preso nessa maca, achando que eu sou só mais um desses caras que inventa um desculpa imensa - e mais ainda absurda - para não ter de ficar aqui. Mais uma pessoa que aparece com um ferimento normal e mente o quanto consegue para fugir desse cheiro de hospital. E então tudo vai acontecer como toda noite como essa. E eu vou atrás de você, porque é você que estou desejando agora, e é você que eu vou buscar assim que ela aparecer todinha. E então eu vou te alcançar, e te agarrar. Em todo caso, amanhã eu não vou mais te ver. E o mais engraçado é que se eu conseguir você para mim, vou sentir o seu gosto na minha boca para sempre.

Estas foram as últimas palavras do paciente, enquanto uma lágrima solitária escorria de seu olho que começava a se transformar. Naquele exato momento em que a lua se completava cheia, e ele se metamorfoseava.

No fim, ele estava certo, era verdade. Ele era um lobisomem.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

O sonho de mil gatos - parte 1: uma despedida


Tive de novo um sonho com gatos.
Eu já tive mais de 100 gatos na vida. De uma vez só, 32.

Sim, sei o nome de quase todos. Se visse qualquer um deles na minha frente agora, te diria o nome sem pensar duas vezes.

Eu fui criado com os gatos e isso, definitivamente, determinou o jeito como lido com as pessoas. Até o modo como faço carinho nas pessoas é como faço carinho em gatos.

O meu humor, as minhas patadas, a vontade de me isolar às vezes, o grude em outras.

E teve um que era muito do bem. Eu amava de verdade, percebo mais claramente hoje. O Ferdinando.
A mãe dele teve os filhotes (sempre 5 por vez, é algum tipo de metáfora dos gatos: sempre nascem 5) no quintal do vizinho e resolveu trazer pra casa. Pegava com a boca no cangotinho de cada um e vinha trazendo.

1, 2, 3, 4. Nisso o tempo fechou daquele jeito que acontece nas chuvas mais fortes.

Começou uma tempestade. Bíblica. Ela acaba que deixa um no meio do caminho. A gente percebeu, correu lá no quintal.

Tá lá o gato, com o nariz da cor do pêlo (branco).
Gelado. De verdade, gelado, mais que qualquer morto.

Pega o gato. Põe pano com água quente em volta. Tudo com aquele Pai Nosso silencioso que sempre embala a mente nessas situações. Esquenta, esquenta e, de repente, o que eu esperava: volta à vida.
"Esse aqui, que voltou da morte, vai chamar Ferdinando".

O Ferdi não miava. É engraçado, Deus gosta dessas figuras de linguagem. O Ferdi não miava, não ficaa bravo, nem muito contente. O gato voltou à vida, mas o coração sempre permaneceu com aquele gelado.

Ele cresceu, sossegado como só ele. Ao contrário dos outros machos, não ficava dias fora e voltava alquebrado como se vindo de um samba sem fim. O Ferdi gostava de estar lá em casa, não fazia questão dessas emoções.


Todo gato um dia se vai. Para a vida ou para algo depois disso.
E um dia o Ferdi foi. Não vi mais, mas eu sabia que não ía mais voltar.

E hoje sonhei com ele. O encontrei e a cara dele era aquela que nunca saiu da minha memória.
Só que... eu não sabia o nome dele. Olhei, conversei como quem encontra algum rosto conhecido e não liga o nome.

Acordei hoje, fiz mil coisas. De repente tô aqui no serviço, ligo o iTunes. Algo no fundo da cabeça me fala "Cartola".
Vou ouvindo e começa essa música.
E minha boca fala na hora a palavra que me faltava durante todo o dia: Ferdinando.

Deixe-me ir preciso andar,
Vou por aí a procurar,
Sorrir pra não chorar
Deixe-me ir preciso andar,
Vou por aí a procurar,
Sorrir pra não chorar

Quero assistir ao sol nascer,
Ver as águas dos rios correr,
Ouvir os pássaros cantar,
Eu quero nascer, quero viver

Deixe-me ir preciso andar,
Vou por aí a procurar,
Sorrir pra não chorar
Se alguém por mim perguntar,
Diga que eu só vou voltar
Depois que me encontrar

http://www.youtube.com/watch?v=WQZF0vjjNhc

Esta é a música que me vinha na cabeça quando imaginava o dia em que ele foi embora. E não só dele, essa é a música que para mim representa a despedida de todo gato.

Porque todo gato um dia se vai.