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quarta-feira, 23 de março de 2011

Você já sabe o refrão?


Dá pra acreditar?: faz mais ou menos um ano que não escrevo no blog.

E motivos para escrever e para não escrever existem.
Tenho, claro, repensado um monte de coisas, e não gosto de tentar escrever quando minha cabeça está "embarulhada" (para usar um termo genial do James). Mas, paradoxalmente, alguns dos meus melhores textos vêm quando escrevo assim.
Muita gente diria que os melhores, porque eles têm uma pequenas reviravoltas e saliências que deixam tão, tão orgânicos. Confusos, mas envolventes.
Isso seria motivo tanto para escrever quanto para não.
Anyway, tem os motivos para escrever, e vou citar dois principais.
Nesse meio tempo, conheci muita gente. Muita gente que ainda falo ou que não falo mais tanto. Mas, constantemente: gente que me pedia para voltar a escrever.
Não sei se as pessoas me pediam isso porque esse blog tem muito do que alegadamente define meu maior talento, ou se a admiração era real.

It doesn't matter.

Outro motivo é que todo ano eu me prometo que vou "ler mais". Eu ainda me apego ao sonho quixotesco de cumprir a meta que o Carrascoza me passou uma vez, "1 livro por semana". É muito, hoje eu sei. Não na época, eu na faculdade, acreditando que me apaixonaria tanto pelas letras e palavras que passaria o dia envolto por elas. Hoje eu sei que são as pessoas. As palavras são só o que a gente coloca no espaço entre pessoas - tanto que fluem melhor na escrita quando estamos sozinhos. Bom, esse ano eu comecei lendo bem. Estou pegando o que deveria ser o meu "food for thought".

Mas não vou fazer deste post mais um explicando por que eu não tinha escrito mais. Tem uns 3 ou quatro com esse tema, todos nos "recentes".

Vou falar sobre padrões.

Claro, o ponto de partida são os meus padrões. Mas, antes de tudo, uma explicação nada menos que fundamental. Padrão é uma coisa que se repete de tal maneira que algumas pessoas (eu e os gregos da antiguidade, por ex.) acham que o Tempo é cíclico, na verdade. Que as situações na sua vida se repetem de tempos em tempos, como o refrão de uma música. E, mesmo a parte que não é o refrão, ela tem um rítmo que vai se repetindo, muda a letra. A coisa mais normal do mundo, inclusive, é você pegar um pedaço da primeira parte e misturar com um da sergunda, não é mesmo? Sim, tanto quando falo de músicas como quando falo dessa metáfora de R$ 10. A gente revive coisas o tempo todo, e confunde também o que sentiu em uma situação com o que sente na outra.

Pra analisar com precisão, precisamos abrir o foco. É como quem trabalha com tratamento de imagens, a pessoa precisa voltar ao tamanho original para ver como está ficando e depois voltar para o zoom do detalhe que está tratando. Tem como fazer isso na vida, nem sempre é fácil.
É pra isso que existe terapeuta (que eu nunca fiz, improviso by myself conversando com as pessoas nos mais diversos meios): o terapeuta te "iça" lá pra cima, você olha a situação, pensa um "Pouuuuts, saquei. Tava vendo tudo errado. Pode me descer de novo."

E agora, eu escrevendo tudo isso como todas as pessoas escrevem num blog - o conhecido ar de "veja só, iluminei, agora aprenda comigo" - e você pensa "que bom que ele iluminou, gostei disso, vou pensar sobre".
Minha resposta é NÃO.
Eu não iluminei porra nenhuma.

Eu entendi isso, quase como você que lê agora. Mas eu normalmente faço ao CONTRÁRIO.
Quem me conhece sabe como eu sou. Eu sou o cara que não virou piloto de motovelocidade, virou dublé que salta de moto sobre 8 caminhões, porque sabe cair muito melhor do que fazer uma curva certo.

Eu sempre sei que o lance é você dar o zoom out, olhar lá de cima e o mais importante: não repetir erros.
Mas eu repito às vezes. Claro, eu aprendo também e não repito tantos outros.

O lance é que, de um jeito ou de outro, eu fico sempre pensando sobre os desdobramentos de tudo. Do que fiz e do que não fiz.
Isso é meio que uma sina de pensar sobre os padrões, você começa a comparar suas respostas "atuais" com as que deu na última volta da espiral e fica imaginando como seria o efeito dessa resposta "daquela" vez.

Droga, estou odiando o número de aspas que estou usando no texto, elas parecem muito mais necessárias depois dos livros que li esse ano. Os livros são como o gosto residual de café ou pimenta, alteram o gosto de tudo que vem depois. E eu sou viciado nos dois (três?).

Esse tem sido até agora um post típico meu: escrito como eu falo, alguma piração com linguística em dado momento, uma metáfora-chave, duas ou trãs divagações e, claro: agora eu tenho a responsabilidade de fazer o final que amarra tudo. (E esse parágrafo foi o meta-texto que também aparece por vezes).

Eu estou, finalmente, aprendendo a ver quais são os refrões. Eu estou vendo os meus impulsos de cantar algo errado quando a letra na verdade é outra - e me corrijo nessas horas. Eu estou até mesmo acertando o ritmo do todo, prevendo, mas sei que achar que estou vendo tudo é o maior erro. Mas o meu lance é: eu sempre improviso. Quando sei e quando não sei a música.
Eu não vou tentar acertar seguindo a regra. Isso não sou eu. Eu vou continuar improvisar de maneiras diferentes.

Porque improvisar da mesma maneira no fim das contas é mesma coisa que repetir um refrão.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Na companhia de um vinho


Teve uma viagem que fiz, ano passado, em que passei os dias a vinho.
Toda refeição era um tinto. Tomei vários - o melhor foi um em um almoço que está entre os melhores da minha vida. Você fica mal-acostumado depois de começar a fazer refeições assim. Todo o resto das bebidas começa a parecer grosseiro, inadequado. Como almoçar com cerveja.

Vinhos são prazeres que, por si, justificam o fato de termos o paladar.
Para começar, um dos primeiros passos de experimentar um vinho é sentir seu aroma. E então defini-lo. Vale tudo, tem de falar a primeira coisa que vier à cabeça.
Pra mim isso é perfeito. Explico: é que eu tenho uma mania de cheirar as coisas que consumo. Sempre. Quando vou comer um prato qualquer, tenho de sentir o cheiro bem de pertinho antes. É um lance mais pra mania do que pra algo consciente. É genético, provavelmente. Reparei outro dia que minha mãe faz o exato mesmo ritual. E eu nunca tinha prestado atenção nisso antes. Com o vinho, esse prazer é dobrado. Sentir o aroma antes de prová-lo é como sentir o perfume da mulher em sua nuca antes de começar os primeiros passos da dança. E, sim, eu também sou fascinado profundamente por perfumes .

Adoro ter esse prazer de pegar minha companhia de dança, seja italiana, portuguesa, francesa, espanhola, argentina, chilena e até mesmo brasileira e sentir aos poucos o seu perfume antes de nos entregarmos à dança.

Eu começo aos poucos. Passo o copo levemente para deixar o aroma no ar.
Uma, duas vezes.
Vou aproximando a taça cada vez mais e fecho os olhos. Nada melhor para apurar um sentido do que bloquear os outros. Eu fecho os olhos e aproximo a taça até ela ser meu único foco, ser todo o cenário do meu olfato. Então eu respiro a primeira vez. Solto o ar. E inspiro mais uma vez. Só esse ritual já é suficiente para valer mais do que me esbaldar com qualquer suco ou cerveja.

O próximo passo é deixar um leve gole bailar pela boca. Um gole pequeno. Você só consegue mensurar um prazer mais apuradamente quando o experimenta em pequenas doses. As grandes doses são só para acabarmos uma história de maneira grandiosa. Uma apoteose-overdose. Mas, para começar, tem de ser um tico. Um teaser. O começo que suspira "quero mais" na hora em que mal acaba. Você vira devagar esse golinho e respira. Sim, ainda de olho fechadinho. Não, não sei se precisa. Mas é assim que eu faço - e, francamente, acho que sou um bon vivant que aproveita 3 vezes mais qualquer prazer que a maioria das pessoas. Então, se quiser ter uma experiência que te tira um tanto os pés do chão, faça desse jeito. Um gole devagar, do jeito que você tem de fazer ao pegar a mão direita da moça com a sua esquerda para chamar para dançar. Vira devagarzinho, com malícia e inocência de um malandro. Com o golinho na boca, faça-o passear. E o ideal, eu vou te falar agora, não é nem mexê-lo com a língua. Ele não pode ser jogado de um lado para o outro com grosseria. Não. Você vai inclinar a cabeça devagar para um lado e para o outro, deixar ele correr pela boca como se a trilha sonora fosse um tango suave.

E aí, tudo lentamente como um despertar, você vai engolir, ao mesmo tempo em que abre os olhos. E nessa hora que você vai voltar ao mundo desperto, com uma nova visão do mesmo. A visão de uma vida alterada pela experimentação do vinho.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Some never awaken - Anaïs Nin

Alguns textos são bons demais para eu não colocar inteiros.


Some never awaken.

“You live like this, sheltered, in a delicate world, and you believe you are living. Then you read a book… or you take a trip… and you discover that you are not living, that you are hibernating. The symptoms of hibernating are easily detectable: first, restlessness. The second symptom (when hibernating becomes dangerous and might degenerate into death): absence of pleasure. That is all. It appears like an innocuous illness. Monotony, boredom, death. Millions live like this (or die like this) without knowing it. They work in offices. They drive a car. They picnic with their families. They raise children. And then some shock treatment takes place: a person, a book, a song, and it awakens them and saves them from death. Some never awaken.”

-Anaïs Nin